terça-feira, maio 15, 2018

É um pássaro?! É um avião!? Não, é o post outrora-anual sobre a Eurovisão!

Da última vez que tentei reanimar este blogue o paciente deu parcos sinais de vida, antes de voltar a cair num sono profundo que durou até hoje. Por várias vezes nos últimos três anos me senti tentado a fazer um novo esforço e escrever qualquer coisa, mas o épico evento que invadiu a cidade de Lisboa este fim de semana não me deixou outra hipótese senão tentar novamente. É verdade caros amigos, trata-se do saudoso (e outrora anual) post sobre o Festival Eurovisão da Canção!

A minha experiência desta edição do certame foi bastante diferente das anteriores, já que depois de ficar boquiaberto com as multidões que (tal como nós) se deslocaram ao Terreiro do Paço para a Fan Village acabámos por nos inserir na atmosfera do evento, rodeando-nos daquele que é público-tipo da Eurovisão: cavalheiros de meia-idade no engate (que sobra sempre para mim), bifes em despedida de solteiro/a e grupos de jovens que dedicam as semanas que precedem o Festival a memorizar todas as músicas como se as suas vidas dependessem disso. Pelo meio havia também exemplos do chunga tuga que vai porque é de graça e do turista americano que se perde a caminho do hotel e acaba no meio da multidão sem saber muito bem o que raio se passa à sua volta.

Sem mais demoras, passemos à análise da final em si. Na apresentação, Daniela Ruah e Filomena Cautela atribuíram personalidade e fluência à apresentação do espectáculo, enquanto que Sílvia Alberto e Catarina Furtado (nota: se eu estiver naquela forma aos 45 anos dar-me-ei por satisfeito!) tentaram disfarçar a sua falta de domínio da língua inglesa com uma exuberância na entoação que me fez lembrar a senhora minha mãe quando trago amigos estrangeiros a casa. As performances musicais, desde Mariza e Ana Moura até às lendas Eurovisivas nacionais Sara Tavares e Salvador Sobral (onde está a Anabela, pergunto eu?), foram o ponto alto da produção da RTP. A parte menos conseguida foi o facto de o resto do tempo de antena parecer ter sido comprado pelo Turismo de Portugal, tão descarado o esforço para atrair ainda mais turistas para as nossas terras. Não acham que já chega, senhores?


As hostilidades musicais foram abertas com a Ucrânia, cujo uso de pirotecnia em palco me fez temer pelo futuro imediato da Altice Arena. Felizmente tudo acabou bem, apesar dos três minutos de confusão em que um senhor meio-vestido de Drácula repetiu o eloquente refrão (oh-oh-oh-oh oh-oh-oh oh-eh-oh-oh) vinte e sete vezes por entre outras palavras que, apesar de raramente perceptíveis, decididamente não formavam uma única frase coerente.


Seguiu-se o banho de sebo proporcionado pela Espanha, cujo casal de pombinhos (que pelos vistos se conhecem há três meses) deixou a música para segundo plano e decidiu que o importante mesmo era mostrar a todo o Mundo o quão apaixonados estavam um pelo outro, proporcionando a quem assistia um bonito e emocionante elogio ao amor verdadeiro, que me deixou com a cara coberta de lágrimas. Ou então era azeite… Pois, era capaz de ser isso.


A representante da Eslovénia tem alguma pinta (a primeira representante da onda de penteados cor-de-rosa que parecem estar na moda este ano) e a performance marca pontos por ser em esloveno e pela coreografia electrizante. Já a mente brilhante que teve a ideia de introduzir um falso problema técnico a meio da actuação, levando a senhora Lea a pedir ao público que cantasse com ela, precisa de ser arranjar outra ocupação. A sério rapariga, estás a cantar em Esloveno…


Adorava poder comentar a performance da Lituânia, que nos enviou  uma catraia muito querida e bonitinha mas, como adormeci a meio, não tenho condições para o fazer. Passemos então à Áustria, a primeira boa cantiga da noite (e talvez até a melhor). Uma espécie de cruzamento entre John Legend e Adele, o senhor Cesár (o funcionário do registo civil que lhe fez o BI era disléxico) fez o que raramente acontece na Eurovisão - subiu ao palco, cantou que se fartou e foi-se embora. Por isso ganhou a votação do júri e ficou entre os últimos no tele-voto. Ou então foi pela parte em que um holograma do senhor de olhos fechados é projectado por cima das imagens da miniatura do senhor em palco a cantar. Nesse caso já faz algum sentido.


A saia da senhora da Estónia podia ter ganho o festival sozinha, mas infelizmente o facto de precisar de sete pessoas para a carregar até ao palco retirou-a da corrida. Já a cantora que a vestia berrou com autoridade suficiente para percebermos que havia alguém dentro daquele Aquamatrix de alta costura, mas todos nos lembramos da última vez que uma cantora lírica ganhou a Eurovisão, certo? Pois, já não acontece desde… Nunca, de facto.


O rapaz do violino que ganhou o Festival pela Noruega há uns anos regressou em grande, com mais uma música cuja letra não faz sentido absolutamente nenhum. A diferença é que, desta vez, o título da canção é “That’s How You Write A Song”, o que felizmente fez com que o público e o júri decidissem que desta vez a coisa não ia funcionar. Infelizmente não foi o suficiente para deixar o rapaz na meia-final, o que nos obrigou a vê-lo mais uma vez a andar aos pinotes pelo palco a tocar violinos imaginários e a repetir o refrão de uma estrofe durante cerca de oitenta por cento da música.


Sobre Portugal já foi tudo dito, desde que a música é péssima até que era a melhor canção do Festival, por isso há pouco que eu possa acrescentar. Para além disso, e à semelhança da Estónia, adormeci após os primeiros trinta segundos, já que nem o cabelo cor-de-rosa da Cláudia chegou para me interessar minimamente pelo que se passava em palco. Já o mesmo não se pode dizer da terceira cabeleira cor-de-rosa da noite, a britânica SuRie. Depois de prometer aos britânicos não tocar numa pinga de álcool durante o Festival para trazer o caneco de volta à bifolândia, o ponto alto da actuação acabou por ser o senhor que entrou pelo palco dentro e lhe roubou o microfone para chamar “Nazi” à imprensa da dita ilhota. Achei uma falta de respeito inacreditável, um vez que por muito desumanos que tenham sido os crimes cometidos durante a Segunda Grande Guerra, ninguém merece ser comparado à imprensa britânica…


A Sérvia enviou-nos um grupo de personagens aparentemente resgatados de um episódio da Guerra dos Tronos a protagonizar um tema tipicamente Eurovisivo, com muita berraria, uma batida ranhosa e um senhor de cabelos brancos a fazer sabe-se lá o quê arrumado num canto do palco. Já a Alemanha pediu muito ao Ed Sheeran que os representasse nesta edição do Festival, mas como este estava ocupado (teve de ir às finanças no Sábado, uma maçada) tiveram de investir num sósia para o substituir. Infelizmente o escolhido demonstrou a presença em palco de uma iguana embalsamada, mas mesmo assim conseguiu convencer meia dúzia de jurados o suficiente para lhe darem uma dúzia de pontos.


Seguiu-se a Albânia, que nos enviou um grupo de rapazes que queriam muito ser Punk Rockers, mas cujos pais não os deixaram. O resultado são roupas, penteados, piercings e tatuagens que lhes conferem um ar mais ou menos punk e uma power-ballad em Albanês com muito pouco power e cantada duas oitavas acima do registo que combinaria com a indumentária dos senhores. Para a próxima das duas uma: arranjem uma canção como deve ser ou peçam um par de calças de ganga brancas emprestado ao Enrique Iglesias…


O casal de intérpretes franceses deixaram o público na dúvida sobre se a sua música era um jingle promocional de uma famosa marca de chocolates, mas no final de contas percebemos que o refrão era a palavra “Mercy” dita repetidamente em tom afrancesado. A República Checa foi outro país que decidiu contratar um sósia de um cantor famoso, mas em vez do talentoso cenourinha inglês escolheram inspirar-se no irritante Olly Murs. Enquanto que é verdade que a cantiga fica na cabeça, não consigo compreender a necessidade de o rapaz passar metade da mesma com uma mochila às costas. Ainda se ele tirasse de lá uma caneta Bic a meio e alguém lhe fizesse um ditado eu ainda percebia, agora assim…


A vibe Game of Thrones regressou com mais uma canção péssima da Dinamarca, em que nem a neve falsa ou a ventania em palco justificam trinta palavras neste post beterraba. (Faltava-me uma para as trinta. Vocês compreendem, certo?) Já a rapariga Australiana bem se esforçou por espremer o pouco sumo que havia na sua canção medíocre, mas acabou por sofrer pelo simples facto de ninguém perceber o que raio está a Austrália a fazer na Eurovisão. A sério, qualquer dia temos mariachis e escolas de samba a tirar o lugar à Eslovénia e à Letónia… Mas que brincadeira vem a ser esta?!


A Finlândia e a Bulgária decidiram trazer basicamente a mesma canção, a primeira num registo mais Avicii (paz à sua alma) e a segunda armada em Sia. Apostando na originalidade em tempos de austeridade, a Moldávia decidiu fazer de um sistema de armários Pax do IKEA a verdadeira estrela da sua actuação, com os seis senhores e senhoras aos pinotes e o tema genérico-folclórico da Europa de leste a interpretarem um papel claramente secundário.


(Peço desculpa à BBC por lhes roubar a piada do IKEA, mas teve mesmo de ser.)

A Suécia quis muito trazer um sósia do Justin Bieber, que geralmente seria uma excelente forma de garantir mais uma vitória para o país nórdico que leva a Eurovisão mais a sério do que ninguém. No entanto, há qualquer coisa no corte de cabelo do senhor, na sua indumentária ou na iluminação escolhida que lhe dá um ar de psicopata assassino. É um pormenor. Já a música parece escrita para outro Justin, o Timberlake, e se não fosse o ar assustador do intérprete talvez tivesse pernas para andar.


Os representantes anuais do cliché Eurovisivo “os Lordi safaram-se há vinte anos, por isso siga tentar um pseudo-Heavy Metal para ver se isto pega” vêm da Hungria e passam metade da música no limiar entre o “isto até se aguenta” e o “tirem-me isto da frente”.A meio da cantiga começam aos gritos e fica o caldo entornado. Já da Holanda vem um grupo de cowboys que pediram a Kid Rock roupas emprestadas, mas cujos quatro guitarristas (!) fazem magia ao atirarem os seus instrumentos para o lado e desatarem numa correria à volta do palco sem a mais pequena interrupção no acompanhamento musical.


Seguindo o exemplo dos nuestros hermanos, a Irlanda oferece-nos mais um banho de azeite, com os bailarinos aos beijinhos enquanto o Ryan O'Shaughnessy (santinho!) canta uma versão ranhosa de “When You Say Nothing At All” acompanhado por duas pessoas: uma rapariga ao piano e alguém a apertar-lhe os testículos com muita força para ele conseguir cantar tão fininho durante tanto tempo. O próprio Ronan Keating verteu lágrimas de orgulho. Ou então era azeite. Pois, era capaz de ser isso...


Naquela que foi a mais cativante actuação da noite, a senhora Eleni Foureira usa as últimas reservas do stock de pirotecnia, bastante desfalcado depois da actuação do Drácula ucraniano, e produz um clássico Eurovisivo em todos os aspectos - fica no ouvido, deixa toda uma plateia a querer conseguir abanar as ancas como a senhora sem necessitar de uma cirurgia para reparar os inevitáveis estragos que resultariam de tais movimentos e o registo Beyoncé da coreografia até disfarça ligeiramente o facto de a senhora ter um pouco ar de travesti. Nada contra, gostos não se discutem.


Por falar em gostos que não se discutem, resta-nos falar da canção vencedora. A senhora Netta deixou muitas pessoas a perguntar-se sobre o que é que se passou exactamente em palco durante os cento e oitenta segundos da performance Israelita. Por entre ruídos e coreografias galináceas saiu, sem ninguém saber muito bem como, a vencedora do Festival Eurovisão da Canção 2018. No fundo, a edição deste ano confirma a regra geral de que o festival é ganho por um/a intérprete bem parecido/a cuja música fica no ouvido ou por uma interpretação… “diferente”. O Salvador, como já se esperava, não foi uma revolução - foi a excepção que confirmou a regra.


E assim se passou a primeira edição da Eurovisão em Portugal, onde regressámos ao nosso lugar habitual nestas lides - o daqueles para quem o que importa é participar. Pelo caminho ficaram várias cantigas semi-decentes nas semi-finais, das quais destaco a participação da Letónia (representada por uma catraia chamada Silvia Rizotto, tão gira que não merece um nome tão gastronómico) e a da Roménia, que decidiu que recriar o videoclipe de “Total Eclipse Of The Heart” de Bonnie Tyler era a melhor maneira de garantir a passagem à grande final. Com muita pena minha, nem uma nem outra teve grande sorte, e em vez disso deram-nos os barbudos da Dinamarca colegas do Jon Snow. Enfim…


Aguardaremos então com expectativa os detalhes sobre o Festival Eurovisão da Canção de 2018, em cujos intérpretes terão provavelmente de envergar coletes à prova de balas e ter aulas de defesa pessoal. Pelo lado positivo quem decidir tentar outra brincadeira com a actuação do Reino Unido acabará espalhado/a pelo palco em vários pedacinhos muito pequeninos. Vocês não sei, mas eu mal posso esperar!

Beijos e abraços,
Ginete

P.S.- Assim que acabei de escrever este texto dei com este vídeo delicioso da Cláudia Pascoal a ser entrevistada pelo Rui Unas. Primeiro ri-me, depois fiquei com um bocadinho de pena. Mas que o Karma é uma cadela, ah isso é!

quinta-feira, abril 09, 2015

Santa Ignorância

Estando quase sempre fora de Portugal, não estou tão a par do que se passa na actualidade lusitana quanto gostaria. É verdade que com estas modernices dos computadores (é assim que a minha avozinha descreve a Internet) a informação está lá. No entanto, grande parte da informação que assimilamos hoje em dia é-nos oferecida como uma mãe alimenta uma criança - camuflada como um aviãozinho e, se necessário, à força. No geral, esta desactualização é uma bênção - aposto que não preciso de expressar o meu contentamento sobre não ter sido forçado a ouvir todas as "opiniões" que usaram e abusaram dos termos "Resgate", "Austeridade", "Troika" ou "Crise" até ao ponto de todas estas se terem tornado num sinónimo vazio da palavra "Poia". 
No entanto, o resultado mais agradável da minha ausência do país é sem dúvida o não ter tido de olhar para as feições da senhora Chanceler da Alemanha noite sim, noite sim, durante os últimos trinta e seis meses. Sinceramente, acho que fariam um favor ao povo português um favor se introduzissem uma espécie de "Agora Escolha" antes de cada Telejornal, em que os telespectadores teriam a oportunidade de escolher entre a cara de Lili Caneças, a figura de corpo inteiro de José Castelo Branco vestido de toureiro ou a face da senhora Merkel. Aposto que não só seria agradável variar o papel de fundo das más notícias, mas permitiria a psicólogos e sociólogos tirar conclusões bastante assustadoras sobre o estado mental do nosso povo nesta altura difícil.


A única excepção que abro à teoria do "não quero saber - la la la" (nome que deve ser lido, naturalmente, com as mãos a tapar os ouvidos) advém do recente caso da prisão preventiva do ex-Primeiro Ministro Português, o Eng. José Sócrates. Esta excepção é aberta pura e simplesmente porque tudo o que advém da investigação ao senhor é ouro puro. Sem querer aprofundar muito a coisa (sob pena de acabar a escrever três mil palavras sobre isto e tudo o que a geração do Sr. Engenheiro fez pela nossa nação), vou debruçar-me especialmente sobre os numerosos movimentos de solidariedade para com o mesmo - não por achar que estes merecem a atenção de alguém com mais de três neurónios funcionais, mas porque sempre achei libertador debruçar-me sobre movimentos de solidariedade. Como sei muito pouco sobre o assunto na generalidade, vou-me focar na homenagem feita por Rihanna, Kanye West e Paul McCartney ao ex-Primeiro Ministro Português no seu tema "FourFiveSeconds". Julgo ser do conhecimento comum que o verso "If I go to jail tonight, promise you'll pay my bail", proferido pelo Sr. West a certa altura da canção, é uma clara alusão à situação legal do Sr. Engenheiro, que mais sentido ainda faz se considerarmos a história judicial dos três artistas que colaboram nesta homenagem. As semelhanças não acabam aqui - assim como o nosso Ex-Primeiro Ministro é, no contexto da Segunda República, o que menos bem lhe fez e o primeiro a vestir o uniforme de presidiário também Paul McCartney é, dos três intérpretes da canção, o claro líder em termos de encontros imediatos com as autoridades e o que menos contribui para a canção. A razão para a falta de participação do ex-Beatle na canção parece-me ser uma simples e tremenda injustiça, uma vez que este ganha a Kanye West tanto em termos de registo criminal como da qualidade dos sons emitidos pelas respectivas cordas vocais (e não necessariamente num contexto musical). Já a performance governativa de José Sócrates e a sua actual situação imobiliária, por outro lado, devem-se a uma imbatível combinação de incompetência e canalhice - e aqui terminam as comparações com o trio Paul McCartney, Kanye West e Rihanna.


Agora que terminei o meu raciocínio sobre a primeira canção internacional de apoio a José Sócrates, que posso garantir ao caro leitor ter sido produzido sem o recurso a substâncias ilícitas, resta-me partilhar um medo que me assola a alma desde a primeira vez que ouvi a música em questão. No Spotify, o tema "FourFiveSeconds" é, naturalmente, a música mais ouvida de Paul McCartney, com uns singelos oitenta e dois milhões, duzentos e cinquenta e três mil, seiscentos e oito "hits". Não estarei a exagerar se sugerir que pelo menos metade das pessoas que ouviram este tema no Spotify não fazem ideia de quem seja Paul McCartney. É portanto provável que a terceira música mais tocada hoje no Mundo inteiro seja, para a maior parte das almas que a ouviram, "aquela-música-em-que-a-Rihanna-e-o-Kanye-cantam-e-em-que-o-outro-senhor-toca-viola". E isto é assustador, mas nunca tão assustador como o comentário do YouTube que li há uns dias em que se dizia que este tema reúne "dois dos mais influentes artistas contemporâneos e o Paul McCartney". 
Acordem-me quando o bom gosto da humanidade bater mesmo no fundo, que estas descidas vertiginosas fazem-me mal aos ouvidos...

Beijos e abraços,
Ginete

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

O Papel do Ralhamento na História Russa do Século XXI

Estou a ler o Doutor Jivago. Quinhentas páginas de puro prazer, em parte com o objectivo de preparar o estômago para o Guerra e Paz - outra das minhas resoluções de ano novo. As reflexões políticas, religiosas, filosóficas e sociológicas são muito interessantes, mas o que me tem impressionado verdadeiramente é a miríade de alcunhas e nomes que os russos têm uns para os outros. Vejamos esta passagem: 
"(..)Lara chorou como uma simples camponesa e, agarrando Antípov pelas mãos, ajoelhou-se à frente dele.
- Pacha, Páchenka - gritava -, para que nos vais deixar, a mim e à Kátenka?(…)"
Ora a Lara, na realidade, é Larissa, mas depois de se casar com o Pacha também passa a ser conhecida por Antípova. O Pacha e o Páchenka são a mesma pessoa, que na verdade se chama Pável Pávlovitch, e que naturalmente é por vezes tratado pelo seu apelido, Antípov. Ah e por outra alcunha, Patúlia. Se ainda não estão suficientemente confusos, a Kátenka (que pelos vistos é diminutivo de Yekaterina) é uma pirralha de três anos, mas de certeza que até aprender a ler ainda lhe arranjam mais quatro ou cinco nomes só por causa das tosses…
Isto tem dois efeitos: um literário e outro no ramo da descompostura. O literário é óbvio - num livro com vinte personagens recorrentes, se cada um tem em média duas alcunhas e um apelido, o leitor tem de memorizar oitenta nomes para perceber mais ou menos o fio à meada. Ao lado disto, a Guerra dos Tronos mais valia chamar-se Novas Flores para Crianças Mais Atrevidas.
No ramo da descompostura o efeito é ligeiramente mais complexo mas, como o leitor decerto concordará, ainda mais pertinente. Quando a senhora minha mãe ralhava comigo usava, geralmente, o meu nome completo. Aliás - à excepção de qualquer encontro com a minha avó, esta é a única altura em que o meu segundo nome é proferido sem quem o diz levar um pontapé nas canelas. Quando a senhora minha mãe quer ser querida comigo chama-me pela alcunha mais ridícula que alguém alguma vez inventou, talvez à excepção de Patúlia. 
Ora estes Russos, com a sua mania de achar que alcunhas, nomes próprios e apelidos servem todos para o mesmo, tornam a vida negra às pobres crianças, que não fazem ideia se estão a ser tratadas de maneira fofinha ou se estão a levar com uma valente descompostura.
O caríssimo leitor (ou a caríssima leitora) compreende o que acaba aqui de acontecer? Este blogue acaba de avançar uma teoria perfeitamente plausível para a história Russa dos últimos 125 anos, que como toda a gente sabe é basicamente uma factura detalhada de guerras - mundiais, civis, frias, com fiambre, queijo ou mistas. Se não fosse esta palermice dos nomes e das alcunhas iam ver se o senhor Estaline, o senhor Lenine e o senhor Putine (eu sei que é Putin, mas não rimava) e todos os outros não eram tipos pacíficos e sem graves problemas de saúde mental! Bastava saberem dizer imediatamente, no início de cada frase, se as respectivas mãezinhas estavam a ralhar com eles ou a estragá-los com mimos.
Era só isto. Obrigado e boa tarde.

Beijos e abraços,
Ginete (Ou João. Ou Joãozinho. Ou Janico.)

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Bicicletas, Milagres e o Despotismo dos Agentes Imobiliários Bifes

É oficial - com vinte anos de atraso, estou perigosamente perto de finalmente poder dizer que sei andar de bicicleta. Ainda é cedo para me enviarem troféus e medalhas pelo correio, mas não há dúvida que existe progresso - enquanto que há quinze dias tinha mais probabilidades de sofrer um traumatismo cranioencefálico do que de me deslocar mais de dez metros deste modo, hoje estão ela por ela. Esta é uma das minhas resoluções de Ano Novo, sobretudo porque se não o fizer terei de ir a pé para o trabalho… O que em Inglaterra significa contrair uma média de sete broncopneumonias por ano (caso o leitor esteja a perguntar-se se hoje é o dia Mundial de usar termos médicos extremamente compridos, a resposta é "sim").

Existem cinco grandes grupos de pessoas que vivem em Londres. A saber - gente que trabalha em Londres, gente que não trabalha em Londres, gente com mais dinheiro que juízo, estudantes e pessoas a receber subsídios. Sobre estes três últimos grupos, que se intersectam, não me vou alongar para não me chatear muito. 
A gente que trabalha em Londres, na sua grande maioria, trabalha na indústria do milagre de multiplicação das libras. Bancos de investimento, mercados de seguros e companhias especializadas em ajudar o grupo de gente com mais dinheiro que juízo a ter ainda mais dinheiro (também conhecidas como consultorias). Normalmente, as pobres almas que começam a trabalhar para estes senhores recebem três bagos de arroz por mês e partilham um T0 com oito colegas, mas daí a um ano (caso a tentativa de suicídio não seja bem sucedida) são promovidas e passam a ganhar o suficiente para conseguirem sobreviver em Londres.
Gente que não trabalha em Londres vive em Londres por uma razão muito simples - o resto de Inglaterra é uma retrete. Há excepções para situações específicas - ser estudante em Oxford ou Cambridge ou, como no meu caso, em Bristol até pode ser simpático - mas no geral é mais ou menos isso. Como tal, qualquer ser humano não-bife que tente viver numa terrinha bife e também sobreviva à primeira tentativa de suicídio acaba por fugir para Londres. E o que o espera em Londres? O seguinte - rendas absurdas, impostos por tudo menos o ar que respira e a necessidade de vender um rim para pagar o passe do comboio. Se acham que estou a brincar, aqui vai - para a viagem de 36 minutos de Londres até à estação de comboio mais próxima do meu futuro emprego o passe anual são 4300 libras. Isso - quatro mil e trezentas. Em Português, isto são mais de cinco mil e setecentos Euros. E nós pagamos de bom grado, uma vez que em comparação com a vida na terrinha bife sobreviver com um só rim é o negócio do século.

E isto traz-me ao assunto final deste texto - essa espécie peculiar dos agentes imobiliários ingleses. Se tivesse de compilar uma lista de profissões a extinguir, essa estaria empatada na liderança com a de funcionário da EMEL cá do sítio. Mais - se me chamasse Noé e houvesse um dilúvio amanhã, garanto que não haveria espaço na minha arca para um senhor e uma senhora com essa ocupação.
Uma pequena estória para ilustrar a razão desta minha aversão a esta gente. A casa em que vivo neste momento foi-me mostrada por um senhor que é a cara chapada do Príncipe Geoffrey da Guerra dos Tronos, e cuja boca tive portanto vontade de pontapear no instante em que ele se apresentou. Não sou o único, visto que na manhã em que me mostrou a casa o rapaz tinha a cara coberta de chagas, o que devia ter sido um sinal de aviso… Adiante - ao mostrar-me a casa, que era habitada por três pessoas que tinham ar de ser adeptas do banho mensal, garantiu-me que a casa seria limpa e arranjada quando eles saíssem, e pediu-me para ignorar as montanhas de lixo que quase chegavam ao tecto. Confiando na palavra do senhor seguimos em frente, uma vez que a casa era enorme e a renda era só um ligeiro furto - uma combinação que é um excelente negócio nesta cidade. No dia em que me mudei para a casa esta estava exactamente como a tinha visto antes. Literalmente - havia restos de comida no frigorífico e no congelador, roupa suja espalhada pelos quartos e nenhuma das fechaduras na porta funcionava, deixando portanto a casa inteira aberta a quem lá quisesse entrar. As senhoras da limpeza apareceram três dias depois. Pela fechadura, tivemos de esperar dois meses… 
No dia em que encontrar o Príncipe Geoffrey na rua terei de fazer um esforço heróico para o deixar num estado que lhe permita mostrar casas a alguém na manhã seguinte. No entanto, farei os possíveis para que as próximas vítimas do senhor o encontrem exactamente no mesmo estado em que eu o conheci. É serviço público, acreditem.

A razão para este nível de serviço é muito simples: Numa cidade com tanta gente como Portugal inteiro e com menos casas habitáveis que não custam uma fortuna do que a Brandoa, a procura é infinitamente maior do que a oferta. O esforço necessário para arrendar ou vender uma casa é, portanto, mínimo. Das últimas três casas que fui ver, dois dos agentes imobiliários não faziam ideia do valor da renda que o senhorio pedia pela casa, e nenhum dos três fazia ideia do quanto era o imposto municipal. Basicamente, se ao mostrar uma propriedade estes senhores se apresentarem com um aperto de mão e um par de estalos na cara dos clientes o negócio estará fechado daí a três dias, o mais tardar, e naturalmente é basicamente isso que fazem. Gente desta merece uma arca só para elas. Uma com muitos, muitos buracos no casco.

Beijos e abraços,
Ginete

quarta-feira, janeiro 21, 2015

O Regresso do Tótó

Olá. Está alguém desse lado? Não? Pois, bem me parecia. Nada de novo!

Quando alguma alma caridosa se der ao trabalho de ler estas linhas, sinto que lhe devo uma explicação para o retomar das actividades desta coisa, depois de 817 dias de ausência (contei-os todos!). Na verdade trata-se de uma santíssima trindade de razões - a saber: inspiração, medo e muito tempo livre nas mãos - que passo a expor ao/à estimado(a) leitor(a).

Comecemos pela inspiração. Li por alturas do Natal o novo livro do Professor João Magueijo, intitulado "Bifes Mal Passados", e imediatamente senti saudades dessa nobre arte de  de gozar com coisas às quais só eu acho piada e da igualmente louvável prática de dizer mal de coisas que só a mim me fazem espécie. Farei naturalmente os possíveis para que os próximos textos deste blogue não sejam cópias mal enjorcadas do livro do senhor - sobretudo ao nível do vernáculo, visto que este sempre foi (e sempre será) um blogue de família. No entanto, aconselho a leitura do dito a quem está com uma crise de portuguesismo, e subscrevo a grande maioria das observações do autor sobre o povo entre o qual vivo há muito, muito tempo.

Já o medo tem a sua origem… ontem à noite. Num jantar em Lisboa passei a noite a traduzir para português (para efeitos de auto-flagelação humorística) expressões idiomáticas inglesas. A certa altura quis traduzir a expressão "down to Earth" e precisei da ajuda de alguém para me lembrar do quase literal "com o pés assentes na Terra". Já nessa manhã tinha dito, à última pessoa com a qual pretendo fazer figura de emigrante tótó, que não tinha colocado alarme no telemóvel, só me lembrando horas depois de que a palavra "despertador" está viva e de boa saúde. Para quem gozou durante anos com o pessoal do St. Julian's, que dá muito uso àquela língua inventada em que se povilham frases portuguesas com palavras inglesas num rácio de 4:1, facilmente compreenderão que isto é um caso sério.

Já a abundância de tempo livre nas mãos não carece de grandes explicações. Uma das razões pelas quais parei de escrever foi simplesmente trabalho a mais e tempo a menos. Agora que me foi concedido um time-out (saudável, não se preocupem!) dessa realidade, vamos tentar outra vez. Quando voltar a portar-me como gente crescida… bom, logo se vê!

Uma das minhas resoluções de blogue semi-novo (um conceito que, mais ano menos ano, se tornará tão popular como as de ano novo) é a de conter os posts em doses facilmente digestíveis. Se já é difícil ler um texto escrito por alguém que perdeu a língua materna entre as almofadas de um qualquer sofá algures nos últimos dois anos, ainda mais chato isso se torna quando a dimensão desse texto é comparável com a do terceiro filme do Senhor dos Anéis. Com todo o respeito a quem percebe do assunto e é fã dos filmes do senhor Peter Jackson, quatro horas atrás de uma fornalha é muito tempo. 

A segunda resolução é falar menos de aviões e aeroportos. Para já, é um tema tão gasto que se fosse um par de boxers teria o elástico frouxo e às ondinhas. Por demais, ao reler alguns dos últimos textos do moribundo Proglemas, confesso que os que se dedicam a esta matéria soam um tanto ou quanto presunçosos. Acreditem que a criança que está neste momento a gritar a plenos pulmões e a dar pontapés nas costas da minha cadeira enquanto o pai o tenta distrair com um jogo no telefone como quem tenta acalmar um cão raivoso com um biscoito não está a facilitar-me a vida, mas resistirei à tentação.

E bom, por hoje é tudo. Se, mais tarde ou mais cedo, alguém perdido tropeçar nisto façam o favor de dizer qualquer coisa para eu não me sentir muito sozinho, tá bom?

Beijos e abraços,
Ginete

P.S. - Caso haja dúvidas, o meu amigo com problemas em pronunciar a palavra "problemas" continua a fazê-lo da maneira que dá título a este blogue. No dia em que isso lhe passar (que, sendo ele tão emigrante e tão tótó como eu, não me parece estar perto) fecho isto de vez...

sexta-feira, outubro 26, 2012

O Último Acto (ou outro título igualmente melodramático à escolha do leitor)


Caso ainda não tenham reparado, já não escrevo há uns tempos valentes. Gostava de dizer que é por falta de tempo ou até por falta de vontade, mas a verdade é que por estes dias tenho a minha fraca e limitada cabeça ocupada com coisas que não têm lugar neste blogue. Se ainda há alguém que passe por cá de quando em vez, terão reparado que há anos que não escrevo sobre aquilo que foi a matéria prima deste sítio desde o seu início - observações e histórias sobre nada em especial que me ocorriam no dia-a-dia, e cujo valor humorístico (regra geral no domínio vasto da palermice) era incomensurável. A razão para esta falta de inspiração é-me desconhecida, mas o mais provável é que tenha a ver ou com o facto de já não ter dezasseis anos ou tanto tempo livre nas mãos. Será provavelmente uma mistura das duas, mas seja como for a ausência prolongada destas histórias e observações só pode ter um efeito na vida dos Proglemas.
No entanto, antes de colocar um ponto final neste último post, sinto-me quase obrigado a escrever qualquer coisa mais ou menos séria sobre o que se vai passando no sítio onde nasci e cresci. Pode ser irónico ou apenas inevitável, mas tal como muitos posts deste blogue escrevo-o a meio de um voo (atrasado) da TAP, que me levará contra minha vontade de volta a Londres. E por "contra minha vontade" não quero dizer que vá algemado a um simpático detective da Polícia Judiciária, apenas que preferia que esta visita a casa durasse mais do que quarenta e oito horas.

Há precisamente dois dias, quando aterrei no velhinho mas sempre saudoso Aeroporto da Portela, um senhor americano sentado à minha frente passou o voo inteiro a ouvir a conversa entre mim e a senhora meia inglesa, meia americana, meia francesa que estava sentada ao meu lado. A parte da conversa com que ele embirrou foi aquela em que eu revelei ter trinta dias de férias por ano. Segundo o senhor, um país em que se trabalha menos de sessenta horas por semana e em que se dá mais de duas semanas de férias anuais aos trabalhadores nunca irá a lado nenhum, e que tanto nós como a Grécia e a Espanha teremos rapidamente de seguir esse caminho se queremos ir a algum lado. Diferenças culturais e crenças no "mais e maior é melhor" à parte, a ideia que fica é que estamos na situação que todos conhecemos por sermos preguiçosos.
Tanto eu como o caro leitor sabemos que isto não é verdade. Durante séculos e séculos, muitos são os exemplos de Portugueses que foram mais longe, que ambicionaram mais e que fizeram melhor que o resto do Mundo. Não somos um povo preguiçoso ou sem ambição, e ainda menos um povo sem talento ou paixão. No entanto, talvez por descuido mas provavelmente por deslumbramento, desde há muito que os problemas estruturais do nosso país estão à vista mesmo de quem tem os olhos semicerrados. Esta é a primeira vez desde há muito tempo em que não temos um corrimão onde nos apoiar. Desde que os Descobrimentos nos levaram à costa Africana, passando pela Índia, o Brasil e pelo Oriente mais distante que a audácia de alguns deu riqueza a todos os outros. De uma forma ou de outra, as colónias foram a nossa tábua de salvação até ao fim do regime Salazarista, e por muito que nos orgulhemos dos navegantes da nossa história, isso acabou por nos "estragar com mimos" durante um longo período de tempo. A União Europeia adiou o inevitável, com a adesão em meados dos anos oitenta a trazer uma riqueza artificial que nunca foi devidamente investida - mais uma vez o problema não surgiu aí, perdeu-se simplesmente uma oportunidade de procurar uma solução.
Os tais "problemas estruturais" em si são motivo para outro post num blogue de alguém que saiba mais sobre o assunto do que eu, por isso não vou abrir essa porta. Vou sim dizer que a preguiça de que o americano mentecapto falava só é verdadeira exactamente neste ponto - quando chega a altura de procurar uma solução. Não se compreende que, menos de quarenta anos depois do 25 de Abril, quase metade da população fique em casa em dia de eleições. Se perderam a fé na nossa classe política (o que é mais que compreensível) demonstrem-no indo às urnas e votando em branco. Se acham que a geração dos nossos pais deixou o país de rastos (opinião igualmente válida), façam a vossa parte para que seja a nossa a voltar a pô-lo de pé - e não falo em manifestações contra a austeridade em que as palavras mais eloquentes ouvidas durante todo o dia consistem em mandar o primeiro ministro para um sítio que rima com alho.
Se me dessem a oportunidade de pagar impostos no meu país fá-lo-ia, mas infelizmente não nasci com jeitinho para fazer o que quer que seja de relevante em Portugal. Não me queixo, pois tenho a sorte de ter trabalho e o privilégio gostar do que faço, mas não posso deixar de sentir pena por me ter vindo embora numa altura em que tanta gente o faz como forma de desistir de um país em que já não acreditam. Pelo contrário, enquanto estiver por fora quero aprender alguma coisa que me torne útil, voltar um dia ao único sítio onde nunca me sinto "estrangeiro" e devolver o favor de me ter tornado quem sou. 
Nesta altura é fácil recorrer a clichés como "não desistam" ou "acreditem que melhores dia virão". Em vez disso, e para quem me quiser ouvir, peço o seguinte - enquanto estiverem a estudar ou a trabalhar dêem tudo para serem os melhores no que fazem. Não gastem os dias a ver as horas passar e façam sempre mais do que o que vos é pedido. Só assim, só se todos nós nos superarmos todos os dias, voltaremos a ser o país de Navegadores incansáveis de outros tempos, e só assim voltaremos a poder olhar o resto do Mundo de cima para baixo.

Como não tenho muito mais a dizer, despeço-me confessando que foi um enorme prazer escrever os duzentos e oitenta posts que compõem a parte "com alguma piada" deste blogue. Foi também agradável escrever este último, mas sinto-me ligeiramente nauseado depois de dactilografar tantas palavras sem incluir nenhuma palermice pelo meio. De qualquer das formas, obrigado a todos os que leram pelo menos um destes duzentos e oitenta e um textos (apesar de a grande maioria ter ficado por aí) e espero que estes tenham servido para mais do que simplesmente aliviar a minha desocupação adolescente. 

Até um dia destes.

Beijos e abraços,
Ginete

segunda-feira, julho 09, 2012

Dentes de ouro e fome

Não sou, decerto, o único a ter opiniões contrastantes sobre a entrevista em que Sofia Aparício revelou ter adquirido, como acessório, um dente de ouro. Por um lado, admiro a coragem da senhora em chegar-se à frente e assumir-se como um exemplo para as gerações futuras sobre o efeito que o crack pode ter nos três neurónios funcionais de uma manequim. Por outro lado, parece-me perigosa a relação que ela faz entre o facto de não usar brincos e a decisão de embelezar a sua dentadura com uma reluzente favola doirada. Será que vai pegar moda entre adolescentes cujos pais não admitem o uso de piercings ou mesmo de brincos normais? Haverá perigo de esta revelação criar uma geração de vilãs do 007, cuja dentição metálica não só lhes trará a capacidade de mastigar enormes placas de aço ao pequeno almoço mas também enormes proglemas na segurança aeroportuária? E estas dentições douradas têm mesmo de ser em ouro a sério ou a crise ditará que o metal precioso seja substituído por latão ou, se as coisas piorarem, da prata que normalmente reveste os bombons de chocolate? É pena que ninguém dê a devida atenção a estas questões pertinentes e desate logo a abandalhar.

Acabei de ler o último livro da trilogia "Hunger Games" (o filme sobre o primeiro capítulo foi traduzido à chapada como "Os Jogos da Fome". Apesar de não me ocorrer uma alternativa mais apropriada, continua a soar mal por isso vou ter de me armar em snob e usar o título em estrangeiro).
Acontece-me poucas vezes ver um filme e ficar tão impressionado que vá a correr comprar o livro. Foi o caso, já que não só é um bom filme como apresenta uma premissa que apesar de não ser original (uma espécie de 1984 misturado com o filme japonês Battle Royale) é cativante e quase actual. Também acontece pouco chegar ao fim do livro e querer que o autor escreva mais, apesar de a história estar fechada e de um quarto livro não fazer grande sentido. No entanto, o que me aconteceu com estes livros pela primeira vez foi ser genuinamente afectado pelo destino dado a algumas das personagens, ao ponto de durante dias depois de acabar o último livro quase sentir que eu era a personagem principal e que o que acontece nos últimos capítulos também me tinha acontecido, numa qualquer dimensão paralela. A única explicação que encontro para isto é eu ter uma coisa importante em comum com a Katniss Everdeen, mas gostava de estar enganado e que os livros tenham esse efeito com todos os que os lerem.
Ao início não me parecia ser o livro mais bem escrito à face da terra, mas cada vez mais acho que a linguagem é mantida a um nível simples pelo facto de ser contada na primeira pessoa por uma rapariga de dezasseis anos. Independentemente da qualidade ou complexidade da linguagem, o enredo e a mensagem são suficientes para recomendar esta trilogia a quem ainda tenha paciência para me ouvir. Fica a sugestão.

Beijos e abraços,
Ginete