quinta-feira, abril 09, 2015

Santa Ignorância

Estando quase sempre fora de Portugal, não estou tão a par do que se passa na actualidade lusitana quanto gostaria. É verdade que com estas modernices dos computadores (é assim que a minha avozinha descreve a Internet) a informação está lá. No entanto, grande parte da informação que assimilamos hoje em dia é-nos oferecida como uma mãe alimenta uma criança - camuflada como um aviãozinho e, se necessário, à força. No geral, esta desactualização é uma bênção - aposto que não preciso de expressar o meu contentamento sobre não ter sido forçado a ouvir todas as "opiniões" que usaram e abusaram dos termos "Resgate", "Austeridade", "Troika" ou "Crise" até ao ponto de todas estas se terem tornado num sinónimo vazio da palavra "Poia". 
No entanto, o resultado mais agradável da minha ausência do país é sem dúvida o não ter tido de olhar para as feições da senhora Chanceler da Alemanha noite sim, noite sim, durante os últimos trinta e seis meses. Sinceramente, acho que fariam um favor ao povo português um favor se introduzissem uma espécie de "Agora Escolha" antes de cada Telejornal, em que os telespectadores teriam a oportunidade de escolher entre a cara de Lili Caneças, a figura de corpo inteiro de José Castelo Branco vestido de toureiro ou a face da senhora Merkel. Aposto que não só seria agradável variar o papel de fundo das más notícias, mas permitiria a psicólogos e sociólogos tirar conclusões bastante assustadoras sobre o estado mental do nosso povo nesta altura difícil.


A única excepção que abro à teoria do "não quero saber - la la la" (nome que deve ser lido, naturalmente, com as mãos a tapar os ouvidos) advém do recente caso da prisão preventiva do ex-Primeiro Ministro Português, o Eng. José Sócrates. Esta excepção é aberta pura e simplesmente porque tudo o que advém da investigação ao senhor é ouro puro. Sem querer aprofundar muito a coisa (sob pena de acabar a escrever três mil palavras sobre isto e tudo o que a geração do Sr. Engenheiro fez pela nossa nação), vou debruçar-me especialmente sobre os numerosos movimentos de solidariedade para com o mesmo - não por achar que estes merecem a atenção de alguém com mais de três neurónios funcionais, mas porque sempre achei libertador debruçar-me sobre movimentos de solidariedade. Como sei muito pouco sobre o assunto na generalidade, vou-me focar na homenagem feita por Rihanna, Kanye West e Paul McCartney ao ex-Primeiro Ministro Português no seu tema "FourFiveSeconds". Julgo ser do conhecimento comum que o verso "If I go to jail tonight, promise you'll pay my bail", proferido pelo Sr. West a certa altura da canção, é uma clara alusão à situação legal do Sr. Engenheiro, que mais sentido ainda faz se considerarmos a história judicial dos três artistas que colaboram nesta homenagem. As semelhanças não acabam aqui - assim como o nosso Ex-Primeiro Ministro é, no contexto da Segunda República, o que menos bem lhe fez e o primeiro a vestir o uniforme de presidiário também Paul McCartney é, dos três intérpretes da canção, o claro líder em termos de encontros imediatos com as autoridades e o que menos contribui para a canção. A razão para a falta de participação do ex-Beatle na canção parece-me ser uma simples e tremenda injustiça, uma vez que este ganha a Kanye West tanto em termos de registo criminal como da qualidade dos sons emitidos pelas respectivas cordas vocais (e não necessariamente num contexto musical). Já a performance governativa de José Sócrates e a sua actual situação imobiliária, por outro lado, devem-se a uma imbatível combinação de incompetência e canalhice - e aqui terminam as comparações com o trio Paul McCartney, Kanye West e Rihanna.


Agora que terminei o meu raciocínio sobre a primeira canção internacional de apoio a José Sócrates, que posso garantir ao caro leitor ter sido produzido sem o recurso a substâncias ilícitas, resta-me partilhar um medo que me assola a alma desde a primeira vez que ouvi a música em questão. No Spotify, o tema "FourFiveSeconds" é, naturalmente, a música mais ouvida de Paul McCartney, com uns singelos oitenta e dois milhões, duzentos e cinquenta e três mil, seiscentos e oito "hits". Não estarei a exagerar se sugerir que pelo menos metade das pessoas que ouviram este tema no Spotify não fazem ideia de quem seja Paul McCartney. É portanto provável que a terceira música mais tocada hoje no Mundo inteiro seja, para a maior parte das almas que a ouviram, "aquela-música-em-que-a-Rihanna-e-o-Kanye-cantam-e-em-que-o-outro-senhor-toca-viola". E isto é assustador, mas nunca tão assustador como o comentário do YouTube que li há uns dias em que se dizia que este tema reúne "dois dos mais influentes artistas contemporâneos e o Paul McCartney". 
Acordem-me quando o bom gosto da humanidade bater mesmo no fundo, que estas descidas vertiginosas fazem-me mal aos ouvidos...

Beijos e abraços,
Ginete

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

O Papel do Ralhamento na História Russa do Século XXI

Estou a ler o Doutor Jivago. Quinhentas páginas de puro prazer, em parte com o objectivo de preparar o estômago para o Guerra e Paz - outra das minhas resoluções de ano novo. As reflexões políticas, religiosas, filosóficas e sociológicas são muito interessantes, mas o que me tem impressionado verdadeiramente é a miríade de alcunhas e nomes que os russos têm uns para os outros. Vejamos esta passagem: 
"(..)Lara chorou como uma simples camponesa e, agarrando Antípov pelas mãos, ajoelhou-se à frente dele.
- Pacha, Páchenka - gritava -, para que nos vais deixar, a mim e à Kátenka?(…)"
Ora a Lara, na realidade, é Larissa, mas depois de se casar com o Pacha também passa a ser conhecida por Antípova. O Pacha e o Páchenka são a mesma pessoa, que na verdade se chama Pável Pávlovitch, e que naturalmente é por vezes tratado pelo seu apelido, Antípov. Ah e por outra alcunha, Patúlia. Se ainda não estão suficientemente confusos, a Kátenka (que pelos vistos é diminutivo de Yekaterina) é uma pirralha de três anos, mas de certeza que até aprender a ler ainda lhe arranjam mais quatro ou cinco nomes só por causa das tosses…
Isto tem dois efeitos: um literário e outro no ramo da descompostura. O literário é óbvio - num livro com vinte personagens recorrentes, se cada um tem em média duas alcunhas e um apelido, o leitor tem de memorizar oitenta nomes para perceber mais ou menos o fio à meada. Ao lado disto, a Guerra dos Tronos mais valia chamar-se Novas Flores para Crianças Mais Atrevidas.
No ramo da descompostura o efeito é ligeiramente mais complexo mas, como o leitor decerto concordará, ainda mais pertinente. Quando a senhora minha mãe ralhava comigo usava, geralmente, o meu nome completo. Aliás - à excepção de qualquer encontro com a minha avó, esta é a única altura em que o meu segundo nome é proferido sem quem o diz levar um pontapé nas canelas. Quando a senhora minha mãe quer ser querida comigo chama-me pela alcunha mais ridícula que alguém alguma vez inventou, talvez à excepção de Patúlia. 
Ora estes Russos, com a sua mania de achar que alcunhas, nomes próprios e apelidos servem todos para o mesmo, tornam a vida negra às pobres crianças, que não fazem ideia se estão a ser tratadas de maneira fofinha ou se estão a levar com uma valente descompostura.
O caríssimo leitor (ou a caríssima leitora) compreende o que acaba aqui de acontecer? Este blogue acaba de avançar uma teoria perfeitamente plausível para a história Russa dos últimos 125 anos, que como toda a gente sabe é basicamente uma factura detalhada de guerras - mundiais, civis, frias, com fiambre, queijo ou mistas. Se não fosse esta palermice dos nomes e das alcunhas iam ver se o senhor Estaline, o senhor Lenine e o senhor Putine (eu sei que é Putin, mas não rimava) e todos os outros não eram tipos pacíficos e sem graves problemas de saúde mental! Bastava saberem dizer imediatamente, no início de cada frase, se as respectivas mãezinhas estavam a ralhar com eles ou a estragá-los com mimos.
Era só isto. Obrigado e boa tarde.

Beijos e abraços,
Ginete (Ou João. Ou Joãozinho. Ou Janico.)

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Bicicletas, Milagres e o Despotismo dos Agentes Imobiliários Bifes

É oficial - com vinte anos de atraso, estou perigosamente perto de finalmente poder dizer que sei andar de bicicleta. Ainda é cedo para me enviarem troféus e medalhas pelo correio, mas não há dúvida que existe progresso - enquanto que há quinze dias tinha mais probabilidades de sofrer um traumatismo cranioencefálico do que de me deslocar mais de dez metros deste modo, hoje estão ela por ela. Esta é uma das minhas resoluções de Ano Novo, sobretudo porque se não o fizer terei de ir a pé para o trabalho… O que em Inglaterra significa contrair uma média de sete broncopneumonias por ano (caso o leitor esteja a perguntar-se se hoje é o dia Mundial de usar termos médicos extremamente compridos, a resposta é "sim").

Existem cinco grandes grupos de pessoas que vivem em Londres. A saber - gente que trabalha em Londres, gente que não trabalha em Londres, gente com mais dinheiro que juízo, estudantes e pessoas a receber subsídios. Sobre estes três últimos grupos, que se intersectam, não me vou alongar para não me chatear muito. 
A gente que trabalha em Londres, na sua grande maioria, trabalha na indústria do milagre de multiplicação das libras. Bancos de investimento, mercados de seguros e companhias especializadas em ajudar o grupo de gente com mais dinheiro que juízo a ter ainda mais dinheiro (também conhecidas como consultorias). Normalmente, as pobres almas que começam a trabalhar para estes senhores recebem três bagos de arroz por mês e partilham um T0 com oito colegas, mas daí a um ano (caso a tentativa de suicídio não seja bem sucedida) são promovidas e passam a ganhar o suficiente para conseguirem sobreviver em Londres.
Gente que não trabalha em Londres vive em Londres por uma razão muito simples - o resto de Inglaterra é uma retrete. Há excepções para situações específicas - ser estudante em Oxford ou Cambridge ou, como no meu caso, em Bristol até pode ser simpático - mas no geral é mais ou menos isso. Como tal, qualquer ser humano não-bife que tente viver numa terrinha bife e também sobreviva à primeira tentativa de suicídio acaba por fugir para Londres. E o que o espera em Londres? O seguinte - rendas absurdas, impostos por tudo menos o ar que respira e a necessidade de vender um rim para pagar o passe do comboio. Se acham que estou a brincar, aqui vai - para a viagem de 36 minutos de Londres até à estação de comboio mais próxima do meu futuro emprego o passe anual são 4300 libras. Isso - quatro mil e trezentas. Em Português, isto são mais de cinco mil e setecentos Euros. E nós pagamos de bom grado, uma vez que em comparação com a vida na terrinha bife sobreviver com um só rim é o negócio do século.

E isto traz-me ao assunto final deste texto - essa espécie peculiar dos agentes imobiliários ingleses. Se tivesse de compilar uma lista de profissões a extinguir, essa estaria empatada na liderança com a de funcionário da EMEL cá do sítio. Mais - se me chamasse Noé e houvesse um dilúvio amanhã, garanto que não haveria espaço na minha arca para um senhor e uma senhora com essa ocupação.
Uma pequena estória para ilustrar a razão desta minha aversão a esta gente. A casa em que vivo neste momento foi-me mostrada por um senhor que é a cara chapada do Príncipe Geoffrey da Guerra dos Tronos, e cuja boca tive portanto vontade de pontapear no instante em que ele se apresentou. Não sou o único, visto que na manhã em que me mostrou a casa o rapaz tinha a cara coberta de chagas, o que devia ter sido um sinal de aviso… Adiante - ao mostrar-me a casa, que era habitada por três pessoas que tinham ar de ser adeptas do banho mensal, garantiu-me que a casa seria limpa e arranjada quando eles saíssem, e pediu-me para ignorar as montanhas de lixo que quase chegavam ao tecto. Confiando na palavra do senhor seguimos em frente, uma vez que a casa era enorme e a renda era só um ligeiro furto - uma combinação que é um excelente negócio nesta cidade. No dia em que me mudei para a casa esta estava exactamente como a tinha visto antes. Literalmente - havia restos de comida no frigorífico e no congelador, roupa suja espalhada pelos quartos e nenhuma das fechaduras na porta funcionava, deixando portanto a casa inteira aberta a quem lá quisesse entrar. As senhoras da limpeza apareceram três dias depois. Pela fechadura, tivemos de esperar dois meses… 
No dia em que encontrar o Príncipe Geoffrey na rua terei de fazer um esforço heróico para o deixar num estado que lhe permita mostrar casas a alguém na manhã seguinte. No entanto, farei os possíveis para que as próximas vítimas do senhor o encontrem exactamente no mesmo estado em que eu o conheci. É serviço público, acreditem.

A razão para este nível de serviço é muito simples: Numa cidade com tanta gente como Portugal inteiro e com menos casas habitáveis que não custam uma fortuna do que a Brandoa, a procura é infinitamente maior do que a oferta. O esforço necessário para arrendar ou vender uma casa é, portanto, mínimo. Das últimas três casas que fui ver, dois dos agentes imobiliários não faziam ideia do valor da renda que o senhorio pedia pela casa, e nenhum dos três fazia ideia do quanto era o imposto municipal. Basicamente, se ao mostrar uma propriedade estes senhores se apresentarem com um aperto de mão e um par de estalos na cara dos clientes o negócio estará fechado daí a três dias, o mais tardar, e naturalmente é basicamente isso que fazem. Gente desta merece uma arca só para elas. Uma com muitos, muitos buracos no casco.

Beijos e abraços,
Ginete

quarta-feira, janeiro 21, 2015

O Regresso do Tótó

Olá. Está alguém desse lado? Não? Pois, bem me parecia. Nada de novo!

Quando alguma alma caridosa se der ao trabalho de ler estas linhas, sinto que lhe devo uma explicação para o retomar das actividades desta coisa, depois de 817 dias de ausência (contei-os todos!). Na verdade trata-se de uma santíssima trindade de razões - a saber: inspiração, medo e muito tempo livre nas mãos - que passo a expor ao/à estimado(a) leitor(a).

Comecemos pela inspiração. Li por alturas do Natal o novo livro do Professor João Magueijo, intitulado "Bifes Mal Passados", e imediatamente senti saudades dessa nobre arte de  de gozar com coisas às quais só eu acho piada e da igualmente louvável prática de dizer mal de coisas que só a mim me fazem espécie. Farei naturalmente os possíveis para que os próximos textos deste blogue não sejam cópias mal enjorcadas do livro do senhor - sobretudo ao nível do vernáculo, visto que este sempre foi (e sempre será) um blogue de família. No entanto, aconselho a leitura do dito a quem está com uma crise de portuguesismo, e subscrevo a grande maioria das observações do autor sobre o povo entre o qual vivo há muito, muito tempo.

Já o medo tem a sua origem… ontem à noite. Num jantar em Lisboa passei a noite a traduzir para português (para efeitos de auto-flagelação humorística) expressões idiomáticas inglesas. A certa altura quis traduzir a expressão "down to Earth" e precisei da ajuda de alguém para me lembrar do quase literal "com o pés assentes na Terra". Já nessa manhã tinha dito, à última pessoa com a qual pretendo fazer figura de emigrante tótó, que não tinha colocado alarme no telemóvel, só me lembrando horas depois de que a palavra "despertador" está viva e de boa saúde. Para quem gozou durante anos com o pessoal do St. Julian's, que dá muito uso àquela língua inventada em que se povilham frases portuguesas com palavras inglesas num rácio de 4:1, facilmente compreenderão que isto é um caso sério.

Já a abundância de tempo livre nas mãos não carece de grandes explicações. Uma das razões pelas quais parei de escrever foi simplesmente trabalho a mais e tempo a menos. Agora que me foi concedido um time-out (saudável, não se preocupem!) dessa realidade, vamos tentar outra vez. Quando voltar a portar-me como gente crescida… bom, logo se vê!

Uma das minhas resoluções de blogue semi-novo (um conceito que, mais ano menos ano, se tornará tão popular como as de ano novo) é a de conter os posts em doses facilmente digestíveis. Se já é difícil ler um texto escrito por alguém que perdeu a língua materna entre as almofadas de um qualquer sofá algures nos últimos dois anos, ainda mais chato isso se torna quando a dimensão desse texto é comparável com a do terceiro filme do Senhor dos Anéis. Com todo o respeito a quem percebe do assunto e é fã dos filmes do senhor Peter Jackson, quatro horas atrás de uma fornalha é muito tempo. 

A segunda resolução é falar menos de aviões e aeroportos. Para já, é um tema tão gasto que se fosse um par de boxers teria o elástico frouxo e às ondinhas. Por demais, ao reler alguns dos últimos textos do moribundo Proglemas, confesso que os que se dedicam a esta matéria soam um tanto ou quanto presunçosos. Acreditem que a criança que está neste momento a gritar a plenos pulmões e a dar pontapés nas costas da minha cadeira enquanto o pai o tenta distrair com um jogo no telefone como quem tenta acalmar um cão raivoso com um biscoito não está a facilitar-me a vida, mas resistirei à tentação.

E bom, por hoje é tudo. Se, mais tarde ou mais cedo, alguém perdido tropeçar nisto façam o favor de dizer qualquer coisa para eu não me sentir muito sozinho, tá bom?

Beijos e abraços,
Ginete

P.S. - Caso haja dúvidas, o meu amigo com problemas em pronunciar a palavra "problemas" continua a fazê-lo da maneira que dá título a este blogue. No dia em que isso lhe passar (que, sendo ele tão emigrante e tão tótó como eu, não me parece estar perto) fecho isto de vez...

sexta-feira, outubro 26, 2012

O Último Acto (ou outro título igualmente melodramático à escolha do leitor)


Caso ainda não tenham reparado, já não escrevo há uns tempos valentes. Gostava de dizer que é por falta de tempo ou até por falta de vontade, mas a verdade é que por estes dias tenho a minha fraca e limitada cabeça ocupada com coisas que não têm lugar neste blogue. Se ainda há alguém que passe por cá de quando em vez, terão reparado que há anos que não escrevo sobre aquilo que foi a matéria prima deste sítio desde o seu início - observações e histórias sobre nada em especial que me ocorriam no dia-a-dia, e cujo valor humorístico (regra geral no domínio vasto da palermice) era incomensurável. A razão para esta falta de inspiração é-me desconhecida, mas o mais provável é que tenha a ver ou com o facto de já não ter dezasseis anos ou tanto tempo livre nas mãos. Será provavelmente uma mistura das duas, mas seja como for a ausência prolongada destas histórias e observações só pode ter um efeito na vida dos Proglemas.
No entanto, antes de colocar um ponto final neste último post, sinto-me quase obrigado a escrever qualquer coisa mais ou menos séria sobre o que se vai passando no sítio onde nasci e cresci. Pode ser irónico ou apenas inevitável, mas tal como muitos posts deste blogue escrevo-o a meio de um voo (atrasado) da TAP, que me levará contra minha vontade de volta a Londres. E por "contra minha vontade" não quero dizer que vá algemado a um simpático detective da Polícia Judiciária, apenas que preferia que esta visita a casa durasse mais do que quarenta e oito horas.

Há precisamente dois dias, quando aterrei no velhinho mas sempre saudoso Aeroporto da Portela, um senhor americano sentado à minha frente passou o voo inteiro a ouvir a conversa entre mim e a senhora meia inglesa, meia americana, meia francesa que estava sentada ao meu lado. A parte da conversa com que ele embirrou foi aquela em que eu revelei ter trinta dias de férias por ano. Segundo o senhor, um país em que se trabalha menos de sessenta horas por semana e em que se dá mais de duas semanas de férias anuais aos trabalhadores nunca irá a lado nenhum, e que tanto nós como a Grécia e a Espanha teremos rapidamente de seguir esse caminho se queremos ir a algum lado. Diferenças culturais e crenças no "mais e maior é melhor" à parte, a ideia que fica é que estamos na situação que todos conhecemos por sermos preguiçosos.
Tanto eu como o caro leitor sabemos que isto não é verdade. Durante séculos e séculos, muitos são os exemplos de Portugueses que foram mais longe, que ambicionaram mais e que fizeram melhor que o resto do Mundo. Não somos um povo preguiçoso ou sem ambição, e ainda menos um povo sem talento ou paixão. No entanto, talvez por descuido mas provavelmente por deslumbramento, desde há muito que os problemas estruturais do nosso país estão à vista mesmo de quem tem os olhos semicerrados. Esta é a primeira vez desde há muito tempo em que não temos um corrimão onde nos apoiar. Desde que os Descobrimentos nos levaram à costa Africana, passando pela Índia, o Brasil e pelo Oriente mais distante que a audácia de alguns deu riqueza a todos os outros. De uma forma ou de outra, as colónias foram a nossa tábua de salvação até ao fim do regime Salazarista, e por muito que nos orgulhemos dos navegantes da nossa história, isso acabou por nos "estragar com mimos" durante um longo período de tempo. A União Europeia adiou o inevitável, com a adesão em meados dos anos oitenta a trazer uma riqueza artificial que nunca foi devidamente investida - mais uma vez o problema não surgiu aí, perdeu-se simplesmente uma oportunidade de procurar uma solução.
Os tais "problemas estruturais" em si são motivo para outro post num blogue de alguém que saiba mais sobre o assunto do que eu, por isso não vou abrir essa porta. Vou sim dizer que a preguiça de que o americano mentecapto falava só é verdadeira exactamente neste ponto - quando chega a altura de procurar uma solução. Não se compreende que, menos de quarenta anos depois do 25 de Abril, quase metade da população fique em casa em dia de eleições. Se perderam a fé na nossa classe política (o que é mais que compreensível) demonstrem-no indo às urnas e votando em branco. Se acham que a geração dos nossos pais deixou o país de rastos (opinião igualmente válida), façam a vossa parte para que seja a nossa a voltar a pô-lo de pé - e não falo em manifestações contra a austeridade em que as palavras mais eloquentes ouvidas durante todo o dia consistem em mandar o primeiro ministro para um sítio que rima com alho.
Se me dessem a oportunidade de pagar impostos no meu país fá-lo-ia, mas infelizmente não nasci com jeitinho para fazer o que quer que seja de relevante em Portugal. Não me queixo, pois tenho a sorte de ter trabalho e o privilégio gostar do que faço, mas não posso deixar de sentir pena por me ter vindo embora numa altura em que tanta gente o faz como forma de desistir de um país em que já não acreditam. Pelo contrário, enquanto estiver por fora quero aprender alguma coisa que me torne útil, voltar um dia ao único sítio onde nunca me sinto "estrangeiro" e devolver o favor de me ter tornado quem sou. 
Nesta altura é fácil recorrer a clichés como "não desistam" ou "acreditem que melhores dia virão". Em vez disso, e para quem me quiser ouvir, peço o seguinte - enquanto estiverem a estudar ou a trabalhar dêem tudo para serem os melhores no que fazem. Não gastem os dias a ver as horas passar e façam sempre mais do que o que vos é pedido. Só assim, só se todos nós nos superarmos todos os dias, voltaremos a ser o país de Navegadores incansáveis de outros tempos, e só assim voltaremos a poder olhar o resto do Mundo de cima para baixo.

Como não tenho muito mais a dizer, despeço-me confessando que foi um enorme prazer escrever os duzentos e oitenta posts que compõem a parte "com alguma piada" deste blogue. Foi também agradável escrever este último, mas sinto-me ligeiramente nauseado depois de dactilografar tantas palavras sem incluir nenhuma palermice pelo meio. De qualquer das formas, obrigado a todos os que leram pelo menos um destes duzentos e oitenta e um textos (apesar de a grande maioria ter ficado por aí) e espero que estes tenham servido para mais do que simplesmente aliviar a minha desocupação adolescente. 

Até um dia destes.

Beijos e abraços,
Ginete

segunda-feira, julho 09, 2012

Dentes de ouro e fome

Não sou, decerto, o único a ter opiniões contrastantes sobre a entrevista em que Sofia Aparício revelou ter adquirido, como acessório, um dente de ouro. Por um lado, admiro a coragem da senhora em chegar-se à frente e assumir-se como um exemplo para as gerações futuras sobre o efeito que o crack pode ter nos três neurónios funcionais de uma manequim. Por outro lado, parece-me perigosa a relação que ela faz entre o facto de não usar brincos e a decisão de embelezar a sua dentadura com uma reluzente favola doirada. Será que vai pegar moda entre adolescentes cujos pais não admitem o uso de piercings ou mesmo de brincos normais? Haverá perigo de esta revelação criar uma geração de vilãs do 007, cuja dentição metálica não só lhes trará a capacidade de mastigar enormes placas de aço ao pequeno almoço mas também enormes proglemas na segurança aeroportuária? E estas dentições douradas têm mesmo de ser em ouro a sério ou a crise ditará que o metal precioso seja substituído por latão ou, se as coisas piorarem, da prata que normalmente reveste os bombons de chocolate? É pena que ninguém dê a devida atenção a estas questões pertinentes e desate logo a abandalhar.

Acabei de ler o último livro da trilogia "Hunger Games" (o filme sobre o primeiro capítulo foi traduzido à chapada como "Os Jogos da Fome". Apesar de não me ocorrer uma alternativa mais apropriada, continua a soar mal por isso vou ter de me armar em snob e usar o título em estrangeiro).
Acontece-me poucas vezes ver um filme e ficar tão impressionado que vá a correr comprar o livro. Foi o caso, já que não só é um bom filme como apresenta uma premissa que apesar de não ser original (uma espécie de 1984 misturado com o filme japonês Battle Royale) é cativante e quase actual. Também acontece pouco chegar ao fim do livro e querer que o autor escreva mais, apesar de a história estar fechada e de um quarto livro não fazer grande sentido. No entanto, o que me aconteceu com estes livros pela primeira vez foi ser genuinamente afectado pelo destino dado a algumas das personagens, ao ponto de durante dias depois de acabar o último livro quase sentir que eu era a personagem principal e que o que acontece nos últimos capítulos também me tinha acontecido, numa qualquer dimensão paralela. A única explicação que encontro para isto é eu ter uma coisa importante em comum com a Katniss Everdeen, mas gostava de estar enganado e que os livros tenham esse efeito com todos os que os lerem.
Ao início não me parecia ser o livro mais bem escrito à face da terra, mas cada vez mais acho que a linguagem é mantida a um nível simples pelo facto de ser contada na primeira pessoa por uma rapariga de dezasseis anos. Independentemente da qualidade ou complexidade da linguagem, o enredo e a mensagem são suficientes para recomendar esta trilogia a quem ainda tenha paciência para me ouvir. Fica a sugestão.

Beijos e abraços,
Ginete

quarta-feira, maio 30, 2012

37º post anual sobre a apanha do caracol


É brincadeirinha, trata-se naturalmente do sétimo post anual sobre o festival Eurovisão da canção. Ora sem mais demoras, vamos analisar a participação portuguesa.


Numa palavra - fraquinho. Levar o faduncho para a Eurovisão é previsível, mas ainda assim quase obrigatório de vez em quando. Agora um electro-faduncho ranhoso vindo de duas senhoras que, se me encostassem a um canto, me davam uma tareia que dificilmente me levantava sozinho? Das duas uma, ou se manda uma canção como deve ser ou se manda uma catraia bem parecida para agradar à vista, agora para isto não vale estar a gastar-se o dinheiro dos impostos da classe média e do proletariado! Ok, o espírito de Álvaro Cunhal apoderou-se de mim momentaneamente, mas está tudo bem. Adiante - os Jedward, a representar mais uma vez a República da Irlanda…


Ora depois de visionamentalizacionar este vídeo ocorre-me apenas uma pergunta - o que é aquilo? E, após longa deliberação, só consigo chegar a uma resposta - são dois adolescentes, a cada um dos quais foram implantados dois eléctrodos, um em cada nádega, emitindo descargas eléctricas ao ritmo desta animada cantiga. Só isto explica o ritmo frenético a que eles dançam e tremem como se estivessem em cima de uma daquelas máquinas de exercícios que vibram, mas em tamanho gigante. E, perdoem-me ir por estes caminhos, mas o que é aquele coraçãozinho com as mãos no meio da cantiga? Aquilo não é só muito foleiro: se tivermos em conta que se tratam de menores e, vá, de irmãos gémeos, chega a roçar o doentio. E o doentio é um tipo que não aprecia ser roçado assim por dá cá aquela palha. Que estupidez, adiante.


Ora a Roménia. É-me difícil dizer mal da Roménia, especialmente num ano em que escassearam concorrentes cujas qualidades musicais passam para segundo plano assim que aparecem no ecrã, e para quadragésimo nono plano assim que abrem a boca - como todos sabemos, parte essencial do panorama da Eurovisão. No entanto, não consigo fechar os olhos ao facto de a entrada da Roménia, apresar de ter os seus argumentos, cantar em espanhol. Ainda menos ao facto de o refrão da cantiga em questão ser "sai-lai-lai-lei-lai-lee everyday, everybody". Felizmente existe um botão em qualquer dispositivo electrónico que permite eliminar os sons emitidos pela senhora, acto altamente recomendado pela direcção deste blogue durante a visuamentali…coiso o vídeo acima.
Outro exemplo desta escola de participantes no festival da Eurovisão é a senhora Eleftheria Eleftheriou (também conhecida como a Fernando Fernandes grega), que junta os pontos já referidos a outros claramente relacionados com a actual situação económica vivida na Grécia - não há dinheiro para grandes roupas, por isso três trapinhos servem (há que mostrar compaixão) e não há dinheiro para ginásios, portanto a alternativa mais viável é passar os três minutos e trinta e três segundos da cantiga aos saltos (o que a miséria faz às pessoas). De certeza que há uma explicação socioeconómica para o facto de a senhora passar a música inteira a fornicar com a lente da câmera de filmar, mas agora não me ocorre nenhuma…


O Reino Unido decidiu novamente apostar na luta pelos míticos nil points, trazendo uma cantiga cujo ponto mais interessante é a altura em que o seu intérprete - nascido na Índia inglesa, antes de deixar de o ser em 1947, altura em que o senhor Engelbert Humperdinck era um jovem de 178 anos - tenta chegar à oitava lá de cima e se safa por pouco de um enfarte de miocárdio. Esta participação é tão fraquinha e desinteressante que nem vídeo merece… Já o prémio "ó amigo, nós percebemos no terceiro verso que te estás a referir à tua pilinha" - nome um tanto ou quanto longo, mas que foi votado unanimemente pelo conselho de directores deste blogue - vai para a Turquia. A sério, com frases como "my ship is made from hope, she’s searching for your bay" ou "hop up to my ship baby I’ll make you fly" o senhor Can Bonomo não engana ninguém. E com aquela fatiota de marinheiro menos gente ainda engana… (reparem a finesse com que eu fintei a tentação de fazer um trocadilho com a expressão "atracar de proa")


Com muita pena minha, o vídeo seguinte é o da entrada que deveria ter ganho este festival. As senhoras Buranovskiye Babushki, representando a Rússia, fizeram-me rir a bandeiras despregadas muito antes de Sábado passado.


Quando vi pela primeira vez os primeiros trinta segundos da sua actuação pensei sinceramente que aquilo eram senhores jovens mascarados, que depois de se desfazerem dos seus fatos desatassem aos pulos a dançar como se não houvesse amanhã. Ora melhor que isso, as intérpretes são mesmo senhoras de idade e elas próprias desatam a dançar enquanto dizem "Party for everybody dance", palavras que passaram a perfazer a totalidade do meu vocabulário russo, até aí inexistente. A história ganha uma nova dimensão ao saber que as senhoras concorreram ao festival para angariar dinheiro para reconstruir a igreja da terra delas, destruída durante o regime Soviético. Pessoalmente, esta prestação eleva-se aos céus ao saber que a participante mais experiente tem setenta e seis anos e é guardadora de vacas. Genial.
Infelizmente, quem ganhou foi a Suécia, com uma catraia cuja cara não se viu durante a actuação inteira e com uma música igual a basicamente todas as outras que se ouvem em estabelecimentos nocturnos ranhosos da Bifolândia.


Apesar de ter ganho, a Suécia desapontou especialmente ao nível da sua contribuição para a paisagem do espectáculo, já que não só a participante deixa muito a desejar como a senhora que anunciou as votações tem idade para ser minha avó e se esqueceu claramente de tomar os medicamentos todos naquela noite, resultando na seguinte prestação:


Enfim, mais uma edição da Eurovisão com os seus altos e baixos. Cá estaremos para o ano e é bom saber que esta competição serve, pelo menos, para me dar uma razão para manter este blogue aberto. Sem um post anual sobre a Eurovisão o que seria de nós? A resposta é "precisamente o mesmo", mas deixem-me ser feliz e deixar a pergunta no ar.

Beijos e abraços,
Ginete

P.S. - Devo claramente ter ido à casa-de-banho durante a actuação do Chipre, caso contrário teria de rever os meus comentários sobre a falta de talento na colheita deste ano. Mesmo assim, no cômputo geral, continua a parecer-me abaixo do par


P.P.S. - Sou só eu que acha que, durante a actuação da Dinamarca, a senhora que toca bateria está mais preocupada em parecer o mais energética possível na televisão do que em acertar nos batuques certos? No entanto, o que faz a canção é claramente o quasi-solo do xilofone no fim da canção - ora vejam:


Ok, eu tenho de parar com isto senão nunca mais saio daqui.